Tempo de Descobertas  /  Conjunto de Câmara de Porto Alegre









worldcat.org

Prefeitura de Porto Alegre
2001
[65:18]











I. SUSPIRAR E MORRER DE AMOR
CANCIONEIRO DE HORTÊNSIA (século XV)

1. Quierese morir Anton  [4:46]  anônimo
2. Ya cantan los gallos  [2:36]  anônimo
3. Antonilla es desposada  [1:51]  anônimo
4. Romerico tu q̃  vienes  [4:47]  Juan del ENCINA (1468-1529)
5. Ia não podeis ser cõtentes  [2:13]  anônimo



II. SONS CONTEMPORÂNEOS

SALMOS
Adolfo Almeida Jr. (1998) | texto da Biblia de Jerusalém
6. Salmo1  [1:39]
7. Salmo 70  [3:15]


8. Manuscrito encontrado numa garrafa  [4:16]  Rogério Tavares Constante (1998)

9. Ao Conjunto de Câmara de Porto Alegre  [6:04]  Fernando Mattos (1998)
texto de Raul Abbott Barbosa (1997)

10. O filho doutro no colo  [2:44]  Fernando Mattos (1999)
texto de Estêvão da Guarda (c.1347)

11. Dized', amigu', en que vos mereci  [5:20]  Fernando Mattos (1998)
texto de D. João Peres de Aboim, trovador de D. Afonso III (1210-1279)


QUATRO CANÇOES DE WERTHER
Luciana Prass (1996)
texto de Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832)
Os sofrimentos do jovem Werther, tradução de Galeão Coutinho
12. Dezembro, 6 - Prelúdio  [1:45]
13. Armim  [1:22]
14. Werther  [2:02]
15. Dezembro, 21  [2:31]


16. Choro Torto  [1:27]  Carlos Branco e James Liberato (1983)
Adaptação para instrumentos antigos de Fernando Mattos (1998)



III. VIRTUDES DE DENTRO
Cantigas de Santa Maria. ALFONSO X, o Sábio (1221-1284)

17. Cantiga n° 8. A Virgen Santa Maria  [5:24]   CSM  8
18. Cantiga n° 10. Rosa das Rosas  [6:13]   CSM  10
19. Cantiga n° 40. Deus te Salve, Groriosa   [5:03]   CSM  40

















CONJUNTO DE CÂMARA DE PORTO ALEGRE


Componentes

Christian Benvenutihammered dulcimer, percussão e voz
Janaína Condessaflautas doces renascentistas, gemshom, krummhom, flauta transversal renascentista e voz
Flávia Domingues Alvesalaúde e voz
Marina Kleinerabecas medievais, voz, viela de roda e percussão
Marlene Hofmann Goidanich — voz, flauta doce tenor e percussão

Coordenadora: Marlene Hofmann Goidanich



TEMPO DE DESCOBERTAS

Tomada de som, Efeitos e Mixagem: Marcella Sfoggia
Edição e Masterização: Marcos Abreu
Direção Artística e Produção Executiva: Marlene Hofmann Goidanich
Arte Gráfica: Chico Machado
Fotografias: Myra Gonçalves e Cristina Lima
Comentários: Marlene H. Goidanich e Fernando Mattos
Fabricação: MICROSERVICE

Agradecimentos:
Adolfo Almeida Jr., Carlos Branco, Fernando Lewis de Mattos, James Liberato, Luciana Prass, Marlise Goidanich, Raul Abbott Barbosa,
Rogério Tavares Constante, Vera Herrmann Hofmann, Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre, Fitasul.

Financiamento: FUMPROARTE
Apoio Cultural: FITASUL | AUDIO & VIDEO PROFISSIONAL

Registro realizado no Salão Mourisco da Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre. Setembro de 2001.
















“Assim como há gente que tem medo do novo, há gente que tem medo do antigo. Eu defenderei até a morte o novo por causa do antigo e até a vida o antigo por causa do novo. O antigo que foi novo é tão novo como o mais novo novo. O que é preciso é saber discerni-lo no meio das velhacas velharias que nos impingiram durante tanto tempo”.

Verso, Reverso, Controverso de Augusto de Campos




TEMPO DE DESCOBERTAS

O repertório de "Tempo de Descobertas", que foi concebido para comemorar os 30 anos de atividades do Conjunto de Câmara de Porto Alegre, é composto de três partes. A primeira delas, "Suspirar e Morrer de Amor", resgata cinco exemplos da rica mas ainda pouco conhecida música ibérica do século XV, em homenagem aos 500 anos do descobrimento do Brasil.

A segunda parte do programa, "Sons Contemporâneos", é uma inovação no trabalho que o Conjunto de Câmara de Porto Alegre vem realizando desde 1969. Diferentemente da redescoberta da Musica Antiga, "Sons Contemporâneos" busca integrar o antigo no novo, mediante a apresentação inédita de músicas de compositores gaúchos criadas especialmente para as vozes e instrumentos medievais e renascentistas do grupo.

O programa encerra com "Virtudes de Dentro", retorno às origens da música ocidental. Essa terceira e última parte traz para o presente três belos exemplos da musica ibérica do século XIII.

Com "Tempo de Descobertas", o Conjunto de Câmara de Porto Alegre pretende reviver a cultura musical da peninsula ibérica antes e durante o período dos grandes descobrimentos marítimos, ao mesmo tempo que busca novas experiências musicais, mesclando a linguagem contemporânea com instrumentos de época em composições escritas para o grupo.

Esperamos que "Tempo de Descobertas" proporcione novas descobertas aos amantes da música de todos os tempos.

Marlene H. Goidanich
















COMENTÁRIOS


SUSPIRAR E MORRER DE AMOR

As músicas da primeira parte do repertório são do Cancioneiro Musical e Poético da Biblioteca Publia Hortênsia, encontrado pelo pesquisador Manuel Joaquim em 1928 em Portugal. Todas as músicas têm a forma musical ABBA, correspondente ao vilancete popular ibérico dos séculos XV e XVI, e foram compostas para três vozes por compositores anônimos utilizando poemas em castelhano e galego português. Seu conteúdo poético é amoroso e profano.

"Quierese morir Anton" é uma composição a três vozes com particular encanto na aplicação de silêncios no fim de cada verso. O grupo a executa como uma pavana (dança baixa e lenta). A poesia aparece nas “Obras de Gregório Silvestre” (1520-1570), poeta, compositor e organista português que escrevia em castelhano.

"Ya cantan los gallos" é uma canção de aurora geralmente cantada avisando a alvorada, horário em que os amantes deveriam se separar. A voz intermediária é praticamente a mesma do “tenor” da obra do compositor Vilches encontrada no Cancioneiro Musical Espanhol de Francisco Barbieri.

"Antonilla es desposada" é uma maliciosa canção popular da qual não se conhece o autor.

"Romerico tu q&771;  vienes" foi uma composição muito difundida no século XVI, de Juan del Encina (1468-1529), poeta, compositor e dramaturgo. Encontra-se também no Cancioneiro Musical de Palacio de Higino Anglés (cancioneiro da corte dos Reis D. Fernando e Da Isabel). A aparente simplicidade dessa composigão tem como objetivo salientar a expressão emocional e dramática do texto cantado.

"Ia não podeis ser cõtentes" é, pelo caráter lírico de sua forma poética, uma das músicas dos “serões de Portugal tão falados no mundo” referidos pelo 1° Conde do Vimioso, D. Francisco de Portugal, no seu livro “Arte de Galanteria", para uso das Damas de Palácio.



NOVA SONORIDADE COM TIMBRES ANTIGOS

Nos últimos quinze anos houve interesse por parte do grupo em executar músicas especialmente compostas para os instrumentos antigos de seu acervo. O primeiro compositor a atender os pedidos foi Ronel Alberti da Rosa, que em 1984 escreveu "Lauda" com textos de hinos religiosos da Idade Média e a dedicou ao Conjunto de Câmara de Porto Alegre.

Em 1996 o Conjunto de Câmara de Porto Alegre também executou, em primeira audição mundial, os três "Cantos Gregorianos, Série I", que Fernando Mattos compôs especialmente para o grupo, com textos irreverentes de Gregário de Matos.

Neste programa, em comemoração aos 30 anos do Conjunto de Câmara de Porto Alegre, os músicos darão vida às partituras, em sua maioria inéditas, escritas especialmente para a ocasião. O Conjunto de Câmara de Porto Alegre aproveita para agradecer a esses compositores, cuja contribuição foi fundamental para a realização deste repertório.

Os comentários sobre estes "Sons Contemporâneos" estão a cargo do compositor Fernando Mattos.



VIRTUDES DE DENTRO

As músicas da terceira parte de “Tempo de Descobertas” são de devoção à Virgem Maria.

D. Alfonso X, o Sábio, nasceu em Toledo, em 1221, tornou-se Rei de Leão e Castela em 1252, permanecendo no trono até sua morte, em Sevilha, no ano de 1284. Foi patrono das artes e em sua corte foi compilado o manuscrito Cantigas de Santa Maria, cujas 430 composições foram escritas em galego português. Acredita-se que nem todas as músicas são de sua autoria, mas também criadas pelos poetas-músicos de sua corte. São melodias monódicas que permitem aos músicos intérpretes as mais diversas possibilidades de instrumentação e improvisação. Sua variedade métrico-musical revela a influência da cultura lírico-musical árabe.

"A Virgen Santa Maria" conta o milagre que Santa Maria fez em Rocamador, ocasião em que, ao ouvir o jogral Pedro de Sigrar cantando e tocando tão bem, fez descer uma vela sobre seu instrumento.

"Rosa das Rosas" é uma das mais inspiradas canções de Alfonso X, na qual o rei trovador canta seu amor à Virgem como se ela fosse sua “domna", no verdadeiro sentido do amor cortês provengal.

"Deus te salve, groriosa" é uma cantiga de louvor à Santa Maria, em que o povo, com fervor religioso, canta as maravilhas que Deus fez por ela.

Marlene H. Goidanich




SONS CONTEMPORÂNEOS

O número de compositores que vive atualmente em Porto Alegre é significativo: músicos de várias gerações e com interesses por diferentes meios de realização musical. O repertório de “Sons Contemporâneos” dedicados por alguns destes compositores ao Conjunto de Câmara de Porto Alegre deixa transparecer a multiplicidade de escolhas por diferentes sonoridades e sentidos musicais variados.

Os "Salmos" de Adolfo Almeida Jr. demonstram uma religiosidade aparentemente perdida em nosso tempo. Sua música, sobre os Salmos 1 e 70 da Bíblia de Jerusalém, move-se entre a perenidade divina e a fugacidade humana, o louvor a Deus e a angústia da busca da salvação - significados que se refletem na contraposição de gestos musicais estáticos e rítmicos, amplos e fragmentários, estáveis e irregulares.

Rogério Tavares Constante utiliza-se de uma linguagem musical desprovida de qualquer formalidade em seu "Manuscrito Encontrado Numa Garrafa". A música passa por diversas situagões dramáticas, desde a calmaria do início até a agitação do momento final da pega, que não termina: é simplesmente interrompida.

As "Canções" de Fernando Mattos foram concebidas como reflexão sobre a música trovadoresca medieval. Cada peça traz um mundo imaginário, exaltando o canto que penetra na alma, escarnecendo do marido que andava cuidando do filho de outro enquanto a esposa se prostituía para sustentá-lo ou cantando o lamento da mulher abandonada pelo amante.

As "Quatro Canções de Werther", compostas por Luciana Prass sobre fragmentos de Os Sofrimentos do Jovem Werther de Goethe, realizam a simbiose entre a canção erudita e a canção popular. São instantes colhidos nas correspondências de Werther, representando sua própria sensibilidade e sofrimento ante os homens e o mundo que o cercavam.

O "Choro Torto" foi criado pela parceria entre Carlos Branco e James Liberato, artistas que circulam tanto no meio erudito quanto popular. A pega é composta por uma linha melódica ágil que percorre um amplo registro da flauta sobre um acompanhamento harmônico sofisticado, que realmente “entorta” a estrutura tradicional do choro.

Fernando Mattos






CONJUNTO DE CÂMARA DE PORTO ALEGRE







ORIGEM

O Conjunto de Câmara de Porto Alegre é descendente direto de um trabalho que surgiu de maneira espontânea em 1955 na Faculdade de Filosofia da URGS. A fim de ilustrar as aulas ministradas por René Ledoux a respeito da Idade Média francesa, foi contratada a regente Madeleine Ruffier, que trabalhou canções da época com os estudantes da disciplina. Com o sucesso da experiência criou-se o “Coral de Câmara da Faculdade de Filosofia da URGS", em cujo repertório destacava-se a música medieval, renascentista e contemporânea. Paralelamente ao coral, Madeleine formou, em 1965, o “Madrigal da UFRGS", grupo composto por um sexteto vocal e por flautas doces, fagote, alaúde e violoncelo.

Em 1973, com o falecimento de Madeleine Ruffier, incorporou-se o Madrigal ao “Conjunto de Câmara de Porto Alegre", grupo originado do “Quarteto de Flautas Doces” fundado em 1966 por Isolde Franck. O nome “Conjunto de Câmara de Porto Alegre” surgiu em 1969, quando o antigo quarteto passou a executar música barroca com baixo continuo (cravo e violoncelo).

A partir de 1978, passou o Conjunto de Câmara a ser coordenado por Marlene Hofmann Goidanich, componente do Coral de Câmara desde 1964 e membro-fundadora dos demais grupos. Iniciou-se, então, a aquisigão do atual acervo de instrumentos de reconstrução de época.


TRABALHO ATUAL DO CONJUNTO DE CÂMARA DE PORTO ALEGRE

Grupo independente, o Conjunto de Câmara de Porto Alegre especializou-se, a partir de 1986, na pesquisa da música ocidental dos séculos XII, XIII e XIV.

Para recriar no século XXI a música medieval, o grupo inicia com o estudo de antologias, tratados e manuscritos de época. Todos os textos são traduzidos para o português, embora na execução das obras sejam mantidos os idiomas originais.

Passa-se então à instrumentação das músicas, mediante experimentação dos mais adequados timbres, utilizando-se o acervo de instrumentos do grupo. Os cantores e instrumentistas estudam o repertório escolhido dentro de técnicas especificas tanto na voz, que deve ser natural e flexível, como nos sopros e cordas, cujo som sem vibrato torna as sonoridades mais autênticas.

Pouco a pouco vão surgindo as recriações artesanais, em que cada músico colabora com suas improvisações e ornamentações. O fascínio deste estilo musical está justamente nesta recriação, através da qual cada grupo de música antiga exprime sua personalidade, tornando a música viva. Foi com este espirito que, nos últimos anos, o Conjunto de Câmara de Porto Alegre deu vida às músicas do Minnesinger Oswald von Wolkenstein, às Cantigas de Amigo de Martim Codax, às Cantigas de Santa Maria do Rei Alfonso X, o Sábio, ao Trecento italiano, ao amor cortesão dos Trouvères e Troubadours, à música espiritual de Hildegard von Bingen, ao Bestiário Medieval e às músicas do manuscrito Carmina Burana. Por seu programa, “Trovadores Medievais", o grupo recebeu Menção Especial de “Melhor Trabalho em Música Erudita” no Prêmio Açorianos de Música, edição 1992.

Em 1995 o grupo gravou o CD “Trovadores Medievais” com o financiamento da Lei FUMPROARTE da Secretaria Municipal da Cultura de Porto Alegre e iniciou uma série de apresentações representando o Brasil em países do MERCOSUL à convite do Ministério da Cultura e do Ministério das Relações Exteriores.

Em 1998 o Conjunto de Câmara de Porto Alegre conquistou o Troféu Açorianos de Música de “Melhor Grupo Musical do Ano de 1997”. Na mesma ocasião o espetáculo "Som das Ladainhas” recebeu a indicação de “Melhor Espetáculo”.








CONJUNTO DE CÂMARA DE PORTO ALEGRE

ACERVO DE INSTRUMENTOS

ORGANETTO OU PORTATIV:
Instrumento de teclado com duas oitavas e meia de extensão, com tubos de madeira e fole manual - Irmão Renato Koch, Canoas.

CORDAS BÍBLICAS:
Pequena Harpa Gótica, com cordas de tripa de duas oitavas e meia - Tim Hobrough - Londres.
Dois Saltérios de Dedo em forma trapezoidal com cordas pinçadas - Jorge Jofer, Rio de Janeiro.
Saltério Triangular de Arco - Alberto Araújo, Salvador.

CORDAS PROFANAS:
Hammered Dulcimer grande trapezoidal - Tim Hobrough, Londres.
Rabeca medieval, instrumento de arco, com três cordas de tripa, cabeça de demônio esculpida - James Bisgood, Inglaterra.
Rabeca medieval, com três cordas de tripa - Jorge Jofer, Rio de Janeiro.
Rabeca medieval, com três cordas de tripa e cabeça de leão esculpida; incrustações de madrepérola - Jorge Jofer, Rio de Janeiro.
Viela de Roda Renascentista, com quatro cordas de tripa, reconstruída segundo modelo germânico do Museu de Nürnberg - Helmut Czakler, Viena.
Alaúde Renascentista de oito ordens com sete cordas duplas - Jorge Jofer, Rio de Janeiro.

PERCUSSÃO:
Tambor, Pandeiro, Tamborete, Tabla, duas Darbak, címbalos, Sistros, Sinos - Brasil e Alemanha.
Tambourin de quatro cordas percutidas por baqueta de madeira - Jorge Preiss, Porto Alegre.

SOPROS DE EMBOCADURA LIVRE E DE PALHETA DUPLA INTERNA:
Gemshorn Soprano e Contralto, instrumentos de chifres - Jim Fumer, Londres.
Flauta Transversal Renascentista Tenor - Fabricação Moeck, Alemanha.
Família das Flautas Doces Renascentistas - Fabricação Moeck, Alemanha.
Cornamusa Soprano, Krummhorn Contralto, Kortholt tenor - Fabricação Moeck, Alemanha.










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